O disco de estréia de Susan Boyle está em primeiro lugar nas paradas tanto do Reino Unido, sua terra natal, quanto dos Estados Unidos.
Nos EUA, só não conseguiu quebrar o recorde de Snoop Dogg, que vendeu 803 mil cópias do seu primeiro álbum na semana de estréia diante de 701 mil do disco de Susan.
Os ingleses não devem gostar tanto de hip hop assim, então o recorde na Grã Bretanha ficou com ela mesma. Só na primeira semana foram 410 mil cópias, superando gente como Leona Lewis e os Arctic Monkeys.
Definitivamente, não é pouco.
Se a música é boa ou em que a carreira dela se transformará, eu particularmente não faço a menor idéia.
Espero que tudo dê certo e que ela seja muito feliz e rica. Desejo isso a você também.
Mas não é sobre isso que eu queria falar.
Bom, o texto é um pouco grande, então eu vou antecipar a conclusão para quem não estiver afim ou não tiver tempo ou já estiver de saco cheio.
A conclusão é a seguinte e é velha e batida: nada melhor que uma boa história bem contada.
Aos crentes na minha palavra, minha fé.
Susan Boyle surgiu aos olhos do mundo quando foi ao ar na Inglaterra sua participação no programa Britain’s Got Talent.
Depois, o vídeo espalhou pelo mundo afora e não é preciso dizer muita coisa.
Eu vi, você viu, todo (o) mundo viu.
Mas caso você esteja voltando da sua temporada na Estação Internacional Espacial ou março foi há tanto tempo que você nem se lembra mais, clica aqui.
Ops.
Enfim, como todos perceberam, este vídeo narra um conto de fadas. E dos bons.
Conto de fadas é um tipo de história muito peculiar.
Tem seu próprio universo, sua moral, sua perversidade e uma estrutura bem definida.
História é estrutura. Início, meio e fim.
Você pode até brincar com a ordem disso, e tá muito na moda hoje em dia, mas toda história tem seu início, seu meio e seu fim.
Segundo a Wikipedia, um conto de fadas possui as seguintes características:
- Podem contar ou não com a presença de fadas, mas fazem uso de magia e encantamentos.
A música (e o talento da Susan) podem ser considerados a magia “do bem”, que triunfa diante da energia “do mal” que vêm da platéia.
- Seu núcleo problemático é existencial (o herói ou a heroína buscam a realização pessoal).
Susan é clara quanto às suas intenções: “Quero ser uma cantora profissional”.
- Os obstáculos ou provas constituem-se num verdadeiro ritual de iniciação para o herói ou heroína.
Susan canta diante de um corpo de jurados notoriamente implacável.
- Sua origem é celta.
Isso é o de menos.
Ok.
E quanto à Jornada Interior da personagem?
1. Travessia: “leva o herói ou heroína a uma terra diferente, marcada por acontecimentos mágicos e criaturas estranhas”.
Susan veio para Londres direto de um conjunto de “vi…villages” na Escócia.
2. Encontro: “com uma presença diabólica – uma madrasta malévola, um ogro assassino, um mago ameaçador ou outra figura com características de feiticeiro”.
Desde sua entrada em cena até o início de seu canto, tudo joga contra Susan: o público ri, debocha; os jurados (entre eles Simon Cowell, o melhor arquétipo contemporâneo do carrasco) parecem esperar pelo pior.
3. Conquista: “o herói ou heroína mergulha numa luta de vida ou morte com a bruxa, que leva inevitavelmente à morte desta última”.
Susan canta. E já nos primeiros versos da belíssima (e dificílima) canção que escolheu frustra todas as expectativas de um ato supremo de vergonha alheia e humilhação - tão habituais nesse tipo de programa.
4. Celebração: “um casamento de gala ou uma reunião de família, em que a vitória sobre a bruxa é enaltecida e todos vivem felizes para sempre”.
A platéia (e 2/3 do júri) aplaudem-na de pé. E isso antes mesmo da música terminar. Finalmente, a votação do júri não deixa de ser outra coisa senão celebração.
Uma série de outros fatores contribuem, claro. Edição, trilha, figurino, personagens etc. Mas são apenas acessórios que só realçam o principal - a história.
Aí você vira e me diz: Ivan, deixa isso pra lá, é tudo armação, o Simon Cowell já sabia que assim seria, como é que você ainda acredita em televisão?
Eu respondo: não é esse o ponto. Não interessa se foi acaso, se foi mágico, se foi armado. Interessa é que, na publicidade (estamos falando de venda de um produto, certo?), uma boa história bem contada se propaga como um vírus e é capaz de vender milhões de CDs.
Em pleno 2009.
P.S.: Bom, sou velho de casa, mas novo de blog. Meu nome é Ivan P. Pawlow. Muito prazer.
Comentários recentes